Após morte no Carrefour, Bolsonaro disse ser daltônico: 'todos têm a mesma cor'. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Após morte no Carrefour, Bolsonaro disse ser daltônico: 'todos têm a mesma cor'. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


Por Marco Henrique

Os protestos pacíficos contra o Carrefour não podem parar, além de um boicote social e econômico severo por parte das pessoas de bom senso, ONG’s, movimentos políticos e parceiros comerciais. A empresa citada é reincidente no ocorrido de desrespeito à vida e já agiu de forma truculenta e assassina outras vezes.

Nenhum argumento de protecionismo de mercado tem sentido quando a mesma empresa comete assassinato em suas dependências por mais de uma vez. Isso sem citar os escândalos trabalhistas e perseguições a funcionários que exigiram direitos básicos e a proibição de colaboradores da rede de ir ao banheiro em horários de expediente. Vamos aos casos mais absurdos:

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• Em 2009, Januário Alves de Santana, homem negro, foi espancado no Carrefour de Osasco e acusado por seguranças da loja de ter ‘roubado’ um veículo Ecosport nas dependências da unidade. Porém, o veículo era propriedade de Januário, que não recebeu nenhum questionamento antes de ser brutalmente espancado.

• Em outubro de 2018, funcionários da empresa no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, ABC Paulista, agrediram Luís Carlos Gomes por abrir uma lata de cerveja dentro da loja. Ele foi abordado pelo segurança e pelo gerente da unidade. Luís Carlos afirmou que estava com sede, mas pagaria pelo item no caixa, mesmo assim, sem nenhuma explicação, foi espancado e ficou com uma sequela permanente devido à agressão.

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• Em novembro de 2018, a cachorra Manchinha estava circulando no estacionamento de uma das lojas da empresa – também em Osasco – quando morreu após ser envenenada e espancada por um dos seguranças, que recebeu ordem de seus superiores para se livrar do animal.

• Em agosto de 2019, um promotor de vendas faleceu enquanto prestava serviço em uma unidade do grupo na cidade do Recife, Pernambuco. Moisés Santos, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis e algumas caixas de papelão para que a loja seguisse em funcionamento. Enquanto clientes transitavam naturalmente em volta do corpo estendido sem saber, Moisés permaneceu no local entre 8h e 12h até ser recolhido pelo Instituto Médico Legal (IML). Em momento algum a loja paralisou as atividades e  os clientes e funcionários presenciaram a cena.

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• Na noite da última quinta-feira (19), um homem negro foi espancado até a morte em uma loja localizada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi brutalmente agredido por um policial militar e um segurança do supermercado.

O Carrefour é reincidente, mas não é o único a assassinar em suas dependências. Em fevereiro de 2009, no Extra Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o estudante Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, de 19 anos, foi estrangulado até a morte pelos seguranças após fazer uma selfie dentro do estabelecimento. Até o momento, os agressores não foram julgados. As imagens chocaram o país e mobilizaram protestos.

As providências a serem tomadas pelas autoridades não cabem a mim ou a qualquer cidadão apontar. É para defender a população de absurdos recorrentes como este que elegemos lideranças.

João Alberto Silveira Freitas foi brutalmente agredido até a morte, em um Carrefour de Porto Alegre (RS). (Foto: Reprodução)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em nota, negou que existe racismo estrutural no Brasil. Mediante a tudo que vem acontecendo diariamente e que é acompanhado nos noticiários por toda população, ele deu mais um sinal de descaso com o país e, principalmente, com a população negra, que representa mais de 50% dos brasileiros.

Bolsonaro já se referiu a negros quilombolas por arrobas e afirmou que eles não servem sequer para procriar, também já afirmou em entrevista ao antigo programa de televisão CQC que seus filhos não se casariam com uma negra porque eram bem educados. O único lado bom para o país é que, como líder, ele tem demonstrado quem realmente é como age diante de casos com grande comoção pública. Aliás, ele também não fez nenhuma menção à vítima João Alberto Silveira Freitas e simplesmente o ignorou, como vem fazendo com outros casos. Basta recordarmos da família que teve o carro metralhado com mais de 80 tiros pelo exército nas ruas do Rio de Janeiro, ou mesmo a menina Ágatha de 8 anos, morta com tiro de fuzil nas costas pela polícia carioca. Ou ainda mais grave, e em andamento, o descaso com a pandemia. Logo no início da crise da covid-19, o então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta avisou que chegaríamos a 180 mil mortes caso Bolsonaro não deixasse de agir como ‘moleque’ frente a pandemia. Estamos quase lá, na data em que escrevo, com quase 170 mil mortos.

Mas, e daí? Bolsonaro não é coveiro e nem médico, e tudo não passa de uma gripezinha. Aliás, no Brasil de Bolsonaro não existe milícia, não existe corrupção no governo, não existia óleo em grande quantidade derramado no mar, não existem queimadas na Amazônia e no Pantanal, não existe novo coronavírus, não existe incompetência na gestão econômica do país, não existe inflação, não existe mais fome, não existe aparelhamento do estado, não existe vacina viável para aplicar na população e todo o caos gerado pela falta de abastecimento de energia no Amapá não é responsabilidade do Estado. E por aí seguimos, não é por menos que o Bolsonarismo, assim como o Trumpismo e toda direita radical, vem derretendo no mundo e no Brasil. Aqui, as eleições municipais 2020 vieram para provar com números e resultados.

Nenhum mito e nenhum universo paralelo resiste à realidade prática, nua e crua, mas esse é um assunto para a próxima coluna, onde trarei uma análise mais precisa das eleições municipais. Vamos pensar nos significados e sinais que elas nos trouxeram, dando indícios de como serão as eleições de 2022.


Marco Henrique tem 36 anos, é jornalista, escritor e estrategista político. Há dez anos atua profissionalmente nos bastidores do cenário político realizando gerenciamento de campanhas e estratégias eleitorais para diversos atores políticos e partidos. É constante estudante da história política nacional e seus desdobramentos.


Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site.