João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro (sem partido). (Fotos: Divulgação/Governo de SP e Marcos Corrêa/PR)
João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro (sem partido). (Fotos: Divulgação/Governo de SP e Marcos Corrêa/PR)


Por Marco Henrique

Hoje vou fazer uma análise objetiva, ou seja, baseada em fatos, sobre a participação do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) durante a pandemia.

Vamos relembrar suas atuações durante a crise da covid-19 e todo o processo de desenvolvimento e aprovação da vacina contra o novo coronavírus. Um vírus que, além de levar milhares de vidas todos os dias, está corroendo nossa economia e nossa rede de segurança social.

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Tratando-se de pandemia, João Doria escutou muito mais as autoridades médicas e sanitárias, e trabalhou em conjunto com esses órgãos, valorizando a ciência. A maior parte do tempo, ele aderiu ao discurso de proteção à vida.

Em alguns momentos, cedeu à pressão da indústria e do comércio, mas foi notável que em todas as medidas o objetivo do governo do estado era frear a contaminação pelo novo coronavírus. 

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João Doria errou algumas vezes, mas acertou em muitas outras. Construiu hospitais de campanha, providenciou respiradores e novas vagas de UTI, testes, EPIs e insumos médicos.

O governante se moldou aos desafios de um cenário inédito e sempre colocou a questão sanitária à frente de outras demandas, respeitou os profissionais de saúde e toda a população com dignidade e uma posição humana. Tanto que, até o momento, não presenciamos o governador sendo um aliado do vírus, desprezando o sofrimento do povo ou sendo um agente do caos. Muito menos rindo e debochando da angústia de uma população sofrida. 

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Negar isso é negar a realidade dos fatos, tudo que temos lido, visto e escutado, nesses últimos 11 meses. Os discursos políticos são criados por especialistas em oratória para ludibriar o espectador, seja ele de esquerda ou direita. Por isso é tão importante olharmos para os acontecimentos, focar naquilo que é palpável e inquestionável. 

Não cultivo simpatia por João Doria, mas existe algo que se chama fato,e meu caráter não permite que nenhuma antipatia venha a distorcer as realidade dos acontecimentos.

Na política, líderes distorcem e deturpam a verdade para que ela se molde às suas narrativas. Porém, nenhum discurso mentiroso sobrevive ao confronto com a realidade e por isso precisamos resgatar o hábito valorizar a verdade nesse país. A verdade e a justiça precisam voltar a ser fundamental em nossa sociedade. João Doria tem outros problemas administrativos e políticos e, além disso, um projeto neoliberal horrível. Aliás, o projeto neoliberal é idêntico ao do governo Bolsonaro e que todos que apoiaram a dobradinha BolsoDoria lembram bem. 

Tanto quem votou quanto quem não votou na dobradinha BolsoDoria não se esquece da campanha de 2018. (Foto: Divulgação)

No entanto, no que diz respeito ao desenvolvimento da vacina Coronavac e todas suas tratativas com a China, parte comercial e logística dos insumos, juntamente com a articulação política para que essa vacina viesse a ser produzida no Instituto Butantan, os méritos são únicos de João Doria, sim, gostemos ou não. E ele fez tudo isso – que não é pouco, nem fácil – sem apoio ou verba alguma do Governo Federal, o que torna tudo imensamente mais complicado.

Caso não se lembrem, na semana em que João Doria foi à China realizar as tratativas da vacina, o presidente Jair Bolsonaro anunciava a compra de milhões de caixas da milagrosa Cloroquina, que naquele momento o mundo todo já havia descartado e hoje em dia não passam de lixo investigado por superfaturamento.

Na semana em que as negociações pela vacina chegavam à fase final, Jair Bolsonaro colocou o ministro Marcos Pontes para anunciar que o Brasil tinha descoberto uma nova possível cura para a covid-19. Como nada sério vem desse governo, a salvação proposta era um remédio para vermes.

Agora imaginem se João Doria tivesse agido com o mesmo negacionismo, ignorância, irresponsabilidade e deboche de Bolsonaro. E se ele tivesse optado por coabitar o mesmo universo de fantasias e teorias da conspiração em que o presidente, sua equipe de militares e ministros desqualificados insistem em permanecer, como estaríamos agora?

Tomando a Cloroquina e o remédio do ministro astronauta (aliás, por onde ele anda?), enquanto isso novas cepas que aumentam o contágio do vírus e sua disseminação vão surgindo, até tudo se tornar incontrolável.

Se João Doria tivesse aderido à loucura bolsonarista, não haveria data para terminar esse extermínio e enquanto isso teríamos 45 milhões de paulistanos para vacinar, o que totalizam 90 milhões de doses da vacina.

Os eleitores de Bolsonaro enxergam João Doria como seu maior adversário para 2022 (o que considero uma leitura equivocada e explicarei os motivos em uma próxima coluna), mas essa é a razão das milícias incitarem a militância diariamente via WhatsApp e influenciadores digitais. Estão atacando Doria como se não houvesse amanhã, assim como fazem com todos os outros que possam representar uma ameaça: de PT a Sérgio Moro, passando por Wilson Witzel a Joice Hasselmann. Os ataques são ao velho modo bolsonarista, ou seja, 70% difundindo mentiras e 30% restante distorcendo a realidade e os fatos.

É óbvio que, saindo do assunto pandemia, existem muitas críticas de grande parte da população ao governador paulista. Alguns problemas são relacionados à condução administrativa, além da ameaça de acabar com a isenção do ICMS e o corte de direitos sociais – as pautas mais impopulares. Ainda assim, questões de relevância menor perante o caos que estamos vivendo. 

O mais incoerente nos apoiadores do presidente é que, há pouco mais de 2 anos, a militância que hoje ataca ferozmente João Doria por cortes sociais, votou em um projeto Federal que só falava nos mesmos cortes que ele defende.

Os cínicos fingem lamentar pelos idosos que perderam acesso ao ônibus circular, segundo uma medida do governador, mas não se compadeceram quando a reforma da previdência retirou a aposentadoria dos mesmos idosos.

Não existe meio de buscar coerência nos argumentos de quem ainda apoia todo esse obscurantismo ou busca transformar a situação unicamente em retórica política.

Os mesmos eleitores que incitam ataques ao governador, fazem isso de forma a capitalizar politicamente e não por indignação diante do momento vivido.

Eles não parecem preocupados com a vida e silenciam frente à morte e à dor das mais de 210 mil famílias brasileiras atingidas e de todas aquelas que ainda podem vir a sofrer.

Naturalizaram o desdém do presidente, que dizia não existir vírus, e,depois, quando brasileiros começaram a morrer, disse “e daí, não sou coveiro!” e, nas próprias palavras do presidente, que “não pode fazer nada pelo Brasil”.


Marco Henrique tem 36 anos, é jornalista, escritor e estrategista político. Há dez anos atua profissionalmente nos bastidores do cenário político realizando gerenciamento de campanhas e estratégias eleitorais para diversos atores políticos e partidos. É constante estudante da história política nacional e seus desdobramentos.


Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site.